Artigo 8: A Cooperação com a Operação Divina — A Prática Além da Teoria
Referências: O Abandono à Providência Divina, Livro II, Capítulos I, IV e V.
Um dos maiores obstáculos à vida espiritual é a tentação de substituir a experiência viva da graça por um acúmulo de teorias sobre ela. Jean-Pierre de Caussade, em sua profunda sabedoria pedagógica, ensina no Livro II que a perfeição não é um saber intelectual, mas uma cooperação prática com a "operação divina" que ocorre, muitas vezes, de forma invisível no centro da alma.
1. A Operação Divina como Trabalho Invisível
No Capítulo IV, Caussade nos alerta que as obras de Deus são "raios escuros de um sol mais escuro ainda". Isso significa que a operação de Deus na alma não costuma ser acompanhada de sentimentos claros ou compreensões brilhantes. Pelo contrário, Deus trabalha "em segredo". A nossa cooperação não consiste em entender o que Deus está fazendo — como um paciente que não precisa entender a ciência da medicina para que o remédio faça efeito — mas em manter a vontade submissa e dócil ao tratamento divino.
2. Ciência Teórica vs. Realidade Prática
No Capítulo I, o autor estabelece uma distinção crucial: existe a "ciência da ordem de Deus" e a "realidade da ordem de Deus".
A Ciência é o estudo, o livro, a teologia. É útil, mas pode tornar a alma soberba se não for vivida.
A Realidade é o que nos acontece. É o "Sacramento do Momento Presente". A cooperação fiel consiste em aceitar a realidade como ela se apresenta. Como historiador, você sabe que os factos são a matéria-prima da verdade; para Caussade, o "facto" do momento presente é a matéria-prima da santidade. Cooperar é não opor resistência à forma como Deus decidiu nos conduzir hoje, mesmo que essa forma pareça desprovida de "gosto espiritual".
3. A Liberdade da Alma que Coopera
No Capítulo V, Caussade descreve o resultado dessa cooperação: uma liberdade de espírito imensa. Quando a alma para de tentar gerir o trabalho de Deus e começa apenas a cooperar com o dever de agora, ela se torna leve. A cooperação prática se manifesta na fidelidade ativa (cumprir os mandamentos e deveres de estado) e na fidelidade passiva (aceitar as provações enviadas). Esta "dupla cooperação" é o que permite que a alma avance rapidamente sem a necessidade de métodos complicados, pois ela caminha no próprio ritmo de Deus.
4. Fundamentação Bíblica e Conclusão
Esta cooperação é ilustrada perfeitamente por São Paulo em Filipenses 2, 13: "Pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o operar, segundo o seu beneplácito". Se é Deus quem opera, o nosso papel é o de um colaborador fiel que não interfere na obra do Mestre.
Portanto, a perfeição não está em ler muito sobre o abandono, mas em abandonar-se de facto. É na submissão prática às pequenas contrariedades do dia em Ji-Paraná, na paciência com os limites alheios e na execução diligente das nossas tarefas que a "operação divina" encontra o terreno fértil para nos transformar. A santidade é menos uma conquista da vontade humana e mais uma cooperação com a Onipotência Divina.
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