Artigo 6: A Virtude da Fidelidade Passiva — A Arte de Receber a Escultura Divina
Referência: O Abandono à Providência Divina, Livro II, Capítulo IV (A conduta de Deus a respeito das almas).
No percurso espiritual proposto por Jean-Pierre de Caussade, a maturidade da alma é atingida quando ela compreende que a santidade não é apenas uma construção ativa de nossa parte, mas, sobretudo, uma recepção passiva da operação de Deus. Se a fidelidade ativa nos ensina a agir conforme a lei, a fidelidade passiva nos ensina a ser moldados pelos acontecimentos.
1. A Passividade como Cooperação Superior
Diferente da inércia, a passividade no abandono é uma prontidão amorosa. No Capítulo IV do segundo livro, Caussade utiliza a imagem da alma como uma tela ou uma pedra. O artista (Deus) possui o plano; a matéria-prima (nós) deve apenas não oferecer resistência. A fidelidade passiva consiste na aceitação suave de tudo o que a Providência envia ou permite, sem que tenhamos contribuído com nossa escolha. É o "sim" dado ao que não escolhemos: o clima, as doenças, as interrupções, os temperamentos alheios e as crises históricas.
2. O Mistério das Aparências Opostas
O grande desafio da fidelidade passiva é que a mão de Deus muitas vezes nos toca sob formas que parecem contrárias ao que esperamos. Caussade observa que a ação divina é um "sol escuro". Para os olhos do corpo, um revés financeiro ou uma enfermidade são perdas; para os olhos da fé, são ferramentas de purificação. A alma fiel "lê" o sofrimento não como um obstáculo, mas como a própria presença de Deus agindo sob um disfarce amargo. Como pedagogo, o autor nos ensina que o aprendizado mais profundo ocorre quando deixamos de questionar o método do Mestre e passamos a confiar na Sua intenção.
3. A Aplicação Prática: O "Deixar-se Fazer"
Como desenvolver essa aceitação suave? Caussade sugere que paremos de medir os acontecimentos pelos sentidos. Se medimos pela dor ou pelo prazer, sempre censuraremos a Providência. Se medimos pela fé, adoraremos a Deus tanto na luz quanto nas trevas. Desenvolver a fidelidade passiva exige:
- Silêncio Interior: Calar as reclamações mentais contra o "agora".
- Reconhecimento: Ver em cada instante um "embaixador" divino.
- Adesão: Unir a nossa vontade à Vontade Divina, independentemente do que ela nos traga.
4. Fundamentação Bíblica e Conclusão
A Escritura é o espelho desta virtude. No "fiat" de Maria (Lucas 1, 38), vemos o ápice da fidelidade passiva: ela não pediu para realizar grandes obras, mas permitiu que o Verbo se fizesse nela. Ao abraçarmos essa via, nossa vida deixa de ser um conjunto de acidentes e passa a ser uma obra de arte tecida pela eternidade. A alma que sabe receber, nada perde, pois encontra Deus em tudo.
Edson Cortasio Sardinha
Historiador e Pedagogo
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