A Benção da Fidelidade Passiva.
Enquanto a fidelidade ativa nos convoca ao trabalho e ao cumprimento do dever, a **fidelidade passiva** é a arte de receber. No pensamento de Jean-Pierre de Caussade, esta é a dimensão da espiritualidade que nos ensina a abraçar tudo o que Deus faz em nós e ao nosso redor, sem a nossa intervenção direta.
O Que é a Fidelidade Passiva?
A fidelidade passiva não deve ser confundida com preguiça ou indiferença. É, na verdade, uma prontidão amorosa para aceitar as disposições da Providência que nos chegam através das circunstâncias externas ou de estados interiores. No **Capítulo III (A santidade consiste em querer o que Deus quer)**, Caussade esclarece:
"A fidelidade passiva consiste na aceitação amorosa de tudo o que Deus nos envia a cada instante, sem que para isso tenhamos contribuído com a nossa escolha."
Nesta via, a alma não escolhe as suas cruzes nem as suas consolações; ela limita-se a dizer "sim" ao que se apresenta, reconhecendo que Deus sabe melhor do que nós o que é necessário para a nossa santificação.
O Fundamento Bíblico
A Escritura Sagrada oferece-nos modelos perfeitos desta entrega confiante, onde a força não reside no fazer, mas no acolher:
1. Lucas 1, 38:** *"Disse então Maria: 'Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra'."* O "fiat" da Virgem é o maior exemplo de fidelidade passiva na história; ela permitiu que a ação de Deus operasse nela inteiramente.
2. **1 Pedro 5, 7:"Lançai sobre ele todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós."* A aceitação passiva baseia-se na certeza teológica de que somos alvo de um cuidado paternal constante.
A Doçura no Abandono
Muitas almas perdem a paz porque tentam lutar contra o que é inevitável ou lamentam as situações que Deus permitiu. Caussade ensina que a paz reside precisamente na cessação dessa resistência. No **Capítulo IV (A conduta de Deus a respeito das almas)**, o autor observa:
"A alma que sabe abandonar-se encontra em tudo uma doçura inalterável, pois em cada acontecimento, por mais amargo que pareça, ela prova a vontade de Deus."
Praticar a fidelidade passiva é reconhecer que, mesmo quando estamos doentes, cansados ou impedidos de realizar nossos projetos, Deus continua a trabalhar em nós. O **diretor** espiritual aqui não é mais a nossa vontade própria, mas o Espírito Santo, que molda a alma através do martelo e do cinzel das providências cotidianas. A santidade, portanto, torna-se um exercício de "deixar-se levar" pelas mãos do Criador.
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